Podia inventar muitas histórias, mas tenho um sonho e nada melhor do que contar a minha própria história, o meu grande sonho!
O meu sonho já tem muitos anos! Tem vindo a crescer comigo. Ainda sou muito nova, bem sei, mas sinto que cada vez se torna maior o que me vai dando força para não desistir ……..
Foi aos 3 anos que tudo começou! Andava sempre aos saltos e a dançar, por todo o lado e em todo o sítio, e a minha Mãe, já um pouco cansada de tanto saltarico, resolveu levar-me a experimentar o Ballet. Nunca imaginamos, eu e os meus Pais, que esse dia fosse o primeiro de uma grande paixão. Mas assim aconteceu. Tudo passou a ser mágico para mim. Os primeiros movimentos, as primeiras piruetas, o momento da dança livre, era tudo tão bom e tão vivido por mim. O estúdio da escola passou a ser a minha segunda casa. Lá eu sentia-me livre e muito, muito feliz!
Fui trabalhando e trabalhando! Todos os dias queria aprender coisas novas. Via as aulas das alunas mais velhas e queria muito fazer como elas. Comecei a definir os meus objetivos!
As apresentações da Escola só acontecem no final do ano lectivo com a realização do espetáculo anual. É nesses momentos que eu tomo consciência do que trabalhei e fico orgulhosa de mim própria. Esse é o momento da minha maior felicidade!
Numa noite, depois de ter o meu espetáculo anual, já deitada, dei comigo a pensar no meu sonho! Eu queria fazer grandes espetáculos pelo Mundo fora! Espetáculos onde conseguisse fazer o que mais gosto!
Adormeci, e sonhei! Sonhei muito…….
Era uma manhã fresca de Junho! Ainda estava a dormir e fui acordada pela minha Mãe.
- Filha, filha acorda!
- Mamã…. Tenho sono. O que foi?
- Então, não te lembras? É hoje……
- Mas é hoje o quê Mamã, não estou recordada de nada? - Respondi eu muito ensonada.
- Hoje é o dia das provas para o conservatório, esqueceste-te?
- Claro!! Como é que não me lembrei!
Levantei-me num salto e preparei-me, o melhor e o mais rápido que pude.
A viagem até Lisboa foi normal. Fui com a minha mãe, de carro. Partilhámos conversas normais. Fomos sempre a conversar. Quando chegamos a entrada eu fiquei arrepiada! Entrar por aquela porta era tudo o que eu mais queria! Lá dentro tudo parecia mágico. As pessoas que se iam cruzando connosco, os corredores, as portas, as paredes…… tudo me encantou. O ar que se respirava, era de muito trabalho e dedicação.
As horas iam passando a uma velocidade muito grande. Eramos muitos para fazer audição. Chegou a minha vez. Os nervos, que eram muitos, desapareceram quando ouvi chamar pelo meu nome. Que estranho, pensei!
Fiz a audição. Percebi o que me tinha acontecido. Quando a música começou a tocar, esqueci que estava a ser avaliada. Senti-me livre, e dancei com toda a minha alma! Foi uma sensação muito boa.
Os resultados só iam ser afixados no dia seguinte. Fiquei com a minha Mãe em Lisboa e tentámos não pensar no motivo que nos tinha levado à capital. Não vou dizer que conseguimos, porque estaria a mentir, mas não foi tão mau como ambas pensávamos.
No dia seguinte, logo de manhã, lá estávamos a entrar outra vez na Casa Mágica! Os nomes já estavam afixados e chegava a hora de ver quem tinha conseguido alcançar a tão desejada nota de entrada. Tive medo de procurar pelo meu nome. Mas lá fui, tentando acalmar-me, consultar a lista. Não quis acreditar da primeira vez. Voltei a olhar e só tive tempo de limpar as primeiras lágrimas que me caiam e correr para a minha Mãe. Eu tinha conseguido! Abracei a minha Mãe com toda a minha força e chorei de alegria com ela.
As aulas começavam daí a um mês. Tínhamos muito trabalho pela frente porque a nossa primeira prova fora de portas era no Natal. A nossa apresentação ia ser no Teatro S. Carlos e tudo deveria estar perfeito. E assim foi!
Depois do sucesso que tivemos fomos chamados a participar num concurso que ia decorrer em Moscovo. Estava a ser tudo fantástico, e eu gostava muito da ideia de ir conhecer outros bailarinos, noutros países.
O dia da partida chegou depressa. Fui com os meus pais para o aeroporto, e a despedida foi muito difícil. Afinal era a primeira vez que ia sair do meu país sozinha! Havia muita coisa que ia deixar para trás por uns dias e que me iam fazer muita falta.
Os meus pais desejaram-me boa viagem e vi-os desaparecer pela porta do aeroporto. Foi muito difícil!
Após algum tempo de viagem tivemos de aterrar, não na Rússia porque havia uma grande tempestade e o avião não podia seguir a rota. Aterramos num sítio muito estranho, muito pobre onde se via crianças a chorar, quase despedias e com fome. Todos nós saímos do avião para ver aquele lugar. Um lugar muito triste, bem diferente daquele para onde devíamos ir.
Fui dar uma volta!
Encontrei uma menina num canto a chorar com uma camisola toda rota e com os calções, que de tão rotos se confundiam com uma saia. Cheguei ao pé dela e perguntei:
- Olá como te chamas pequenina?
-Eu sou a Sofia- disse ela gaguejando, e com muito medo.
Tinha por volta de oito anos. Tentei acalmá-la e mostrar-lhe que não lhe queria fazer nenhum mal. Pedi-lhe que viesse comigo e levei-a para junto do nosso grupo. Com muita satisfação, reparei que os meus outros colegas e o professor que nos acompanhava, tinham junto deles outras crianças. Estávamos todos preocupados com aquela situação, e começamos a trocar ideias para ver o que poderíamos fazer.
Apresentei ao professor a minha ideia:
- E porque não tentamos ir para a Rússia, fazer o espetáculo que tínhamos para o concurso em algumas cidades, tentando arranjar dinheiro para ajudar estas crianças?
O Professor e os meus colegas concordaram com a minha ideia. Mas antes de partirmos, devíamos deixar algo que marcasse a nossa preocupação. Corremos para o avião a buscar comida que distribuímos pelas crianças que tínhamos próximo de nós.
Entretanto o piloto já tinha conseguido ter a nossa localização e estávamos muito próximo da fronteira com a Rússia.
Levantamos voo e rapidamente chegámos a Moscovo. No aeroporto estavam algumas das pessoas da embaixada à nossa espera. O professor apressou-se a pedir que nos levassem para o hotel, e a ele para a embaixada onde necessitava de ter uma conversa urgente com o Sr. Embaixador. Tudo parecia estar a correr bem!
O concurso correu muito bem. Tivemos uma boa classificação, mas o mais importante para nós era conseguir mostrar o nosso espetáculo mais vezes. E assim foi! Tivemos cinco cidades que nos receberam. As bilheteiras dos espetáculos foram muito boas o que nos permitiu amealhar muito dinheiro. A juntar a isso, houve ainda algumas pessoas que, quando souberam a finalidade que íamos dar as receitas, nos quiseram ajudar com ofertas de dinheiro extra.
O pequeno país “Sem Nome” foi tomando forma. Começaram a aparecer casas, uma aqui outra ali, as crianças começaram a andar mais vestidas e limpas e conseguimos que tivessem comida.
Passados dois meses regressamos e tudo estava diferente, lindo!
O Professor decidiu abrir uma escola de dança e convidou-me para ficar por lá. Não consegui resistir e durante cinco anos fiz do país “Sem Nome” o meu pequeno mundo. Nada era igual! As pessoas, desde os mais novos aos mais velhos, andavam com um sorriso gigante na cara e os seus olhos brilhavam como duas gigantes pedras preciosas. As pessoas tinham um ar feliz e de quem tinha começado uma vida nova!
Um ano após a nossa chegada, e para comemorar, fizemos um grande cordão humano, fotografado e mostrado a todo o mundo.
Sofia ficou sempre comigo. Tornou-se a minha maior amiga e uma das principais bailarinas da escola.
De repente…………. Acordei!
Sentei-me na cama e relembrei tudo o que tinha passado durante aquela magnifica noite!
Percebi que tinha juntado no meu lindo sonho a maneira de fazer as pessoas felizes e de as ajudar!
Kika





